domingo, 4 de junho de 2017

FAKE EMPIRE

E ele continuou,
mas ainda assim, como qualquer mau jogador de póquer que leu Kipling, conseguiu levantar-se da mesa sem pestanejar, sem insultar deus, o destino ou o universo. Apenas se dirigiu para a porta sem apressar o passo. Disse,
– boa noite,
ao segurança e, cá fora, por causa do vento, lembrou-se de Cesariny, daquela história de levantar a gola de peludo (ou de veludo?). Não se riu de nada, nem sequer dele próprio, não se riu de coisa nenhuma, apenas procurou o carro e pensou,
– pelo menos tenho gasolina para voltar para casa.
Pôs as mãos no volante antes de rodar a chave e ouviu uma voz dentro da cabeça que lhe disse,
– bem, agora sim, perdeste tudo,
mas ainda tinha vinte euros na carteira
(isto não foi há muito tempo).
Foi até um bar onde o conheciam, este mesmo bar onde estamos agora, e sentou-se ao balcão como nós estamos agora sentados, até acho que ele estava sentado exactamente nesse lugar e pediu um whisky como acabámos de pedir. Se pedisse para pagar noutro dia o barman teria dito,
– sabe que aqui está sempre à vontade,
mas não pediu para pagar noutro dia, pediu mais três whiskys e no final pagou a conta com os vinte euros que lhe restavam na carteira.
Durante esse tempo não falou com ninguém nem olhou para ninguém. Apenas se manteve quieto, no canto do balcão, a olhar para o whisky e, por vezes, para o relógio. Não acho que estivesse a pensar no dinheiro que perdeu ou na jogada em que perdeu tudo, não acho que estivesse a fazer contas ou a rever a última carta que saiu, a dama que deu a sequência ao inglês contra o par de ases que tinha de mão. Quando se tem um par de ases, amigo, tem de se apostar tudo, mas nem sempre se ganha, às vezes perde-se para uma sequência que sai com a dama na última carta.
(Sabe, nesta coisa das histórias, das histórias que se contam, ninguém se lembra de quem não paga a conta. E por isso ele pagou o que devia e ficou sem dinheiro, ficou sem nada.)
Apesar dos quatro whiskys levantou-se sem cambalear e caminhou para a porta. Lá fora estava um vento terrível, chovia também, tal como hoje.
Claro que ninguém sabia disto na altura,
diz ele,
ninguém sabia que ele tinha perdido o dinheiro todo, que a mulher o tinha deixado, que já não tinha emprego. Era apenas alguém no fim da noite, a beber whisky e a olhar para o relógio. Podia ser um qualquer, podia ser qualquer um de nós quando parou à porta e se virou para trás e nos disse,
– meus senhores, boa noite a todos.
E eu estou sentado e estou a ouvir esta história, estou a tentar ouvir esta história, a maior parte das vezes aceno com a cabeça, mas o velho é surdo e de cada vez que eu digo,
– não me diga,
ele diz,
– hã?
e continua a história como se eu não tivesse dito nada.
Há uma miúda que não tira os olhos de mim. Olho para os olhos dela e penso,
– vou levar-te para a cama,
mas depois penso em ti, no que estarás a fazer, com quem poderás estar. E por isso acendo um cigarro e bebo o que resta do copo.
 Ele pergunta se quero outro. Eu digo que sim e o Rafael serve-me mais um whisky.
– E então, o que é que lhe aconteceu?,
pergunto eu,
– hã?
diz ele.
– O que é que lhe aconteceu, ao homem do casino, atirou-se da Boca do Inferno ou qualquer coisa parecida?
(Eu continuo a olhar para a miúda e ela para mim.)
E depois ele diz qualquer coisa que eu não ouço,
e eu,
– hã?

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